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Hoje a Serra do Sicó ficou mais pobre. Perdeu uma pessoa que mais do que viver dela, lhe dava vida. Era um dos poucos pastores que ainda restam na serra, e de certeza o mais novo, chamavam-lhe “Tóino”, era meu vizinho, e há cerca de um ano tirei-lhe umas fotos que aqui partilhei. Hoje soube da sua morte, atirou-se ao Rio Ceira, por razões que só ele sabe fugiu do Hospital Psiquiátrico Sobral Cid e atirou-se ao Rio que passa por trás de minha casa. Aqui da janela consigo ver o sitio onde foi encontrado. Uma estranha coincidência, vir morrer perto de minha casa em Coimbra, sendo ele meu vizinho em Pombal…
Confesso que fiquei chocado, mais até do que poderia imaginar. Nunca tive uma relação de amizade, nem sequer grande confiança. Mas era uma pessoa que me habituei a ver desde puto, e que fazia parte do meu imaginário, era daquelas pessoas que só percebemos como nos coloriam a vida quando já é tarde demais.
Um dia, ia eu a passear com o meu pai pela Sicó com a máquina fotográfica na mão quando o encontrámos, começámos a conversar e pedi-lhe para tirar umas fotos. Pedi primeiro para fotografar o gado, como faço sempre para ganhar confiança, mas rápidamente passei para o meu motivo de interesse, que era o próprio “Tóino”. Meio sem graça lá se deixa fotografar, tirando a bóina que trazia na cabeça e compondo o cabelo. Enquanto conversávamos a máquina ia disparando, enquanto eu o ouvia contar a história de cada uma das suas cabras, eram da família, notava-se, e era com orgulho que mas mostrava.
Nesse dia voltei para casa contente, como fico sempre que sinto que tirei boas fotos. A primeira coisa que fiz foi passá-las para o computador e começar a editá-las. Confesso que fiquei contente com o trabalho, que pecava por ser pouco aprofundado. Decidi então que haveria de o fotografar de novo. Peguei numa pen e fui à Fnac, mandei imprimir 10 fotos em 15×20. Passei pelo AKI e comprei 5 “passpartouts” onde emoldurei as 5 melhores fotos, e um dia, em que ele foi a casa do meu avô, apareci lá com as fotos e ofereci-lhas. A sua alegria era evidente, nunca tinha tido uma fotografia dele com o seu rebanho. Disse-me que quando eu quisesse podia ir ter com ele: “Ando sempre ali por volta da Pedreira, se não estiver lá estou do outro lado da montanha”, disse-me ele. Hoje soube que nunca mais irei acabar este trabalho, fiquei triste, e vai ser estranho saber que não haverá mais nenhum pastor a passear junto à Pedreira do Barrocal…
Hoje, sempre que tinha uma pausa no trabalho acabava a olhar para as fotos que lhe tirei, com a certeza que vou ter saudades do último pastor da Serra do Sicó.